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O hospital como personagem

Para : Fernando Neubarth
Médico y escritor. Especialista en Clínica Médica y Reumatología, Presidente de la Sociedad Brasileña de Reumatología/SBR 2006-2008. Presidente del Consejo Consultivo de la SBR.



26 Março, 2021

https://doi.org/10.46856/grp.22.e073

"O Jean-Noël Fabiani é médico, chefe do departamento de cirurgia cardiovascular do Hospital Europeu Georges Pompidou em Paris e professor de história da medicina na Universidade de Paris-Descartes. Autor de vários livros, também foi um dos primeiros cirurgiões do programa Médicos Sem Fronteiras."

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Numa época em que o binômio saúde-doença domina todos os cuidados, catalisa energias e serve tanto de justificativas quanto de omissões ignominiosas de responsabilidade, o seu livro "A fabulosa história do hospital desde a Idade Média até os dias atuais" (La fabuleuse histoire de l'hopital du Moyen Âge a nos jours. C'est l'hôpital qui se moque de la charité! Éditions les Arènes, Paris, 2016) é, ao contrário do que se possa imaginar, uma leitura agradável e até divertida.

Numa linguagem acessível, o Fabiani nos lembra as associações entre a palavra hospital e a sua origem no latim medieval. Convidados vindo de hospes, daí também Hospitale, que gerou o francês hospital (agora hospital). Na mesma linha, hospitalidade e hospício. Resumindo, de hospital até pousada, hotel: uma pousada que a princípio serviu para abrigar os peregrinos, para depois se tornar um repositório humano de mendigos, chatos, presos, idosos, enfermos e loucos. Miserável, marginal.

A partir do primeiro Hôtel-Dieu de Paris, o "hostel de Deus", do ano 651, o autor parece querer levar todo o carvão para o seu escargot, privilegiando as passagens francesas nesta longa trajetória de evolução na área da saúde. Mas é um fato inequívoco que até quase meados do século 20 foi a França que ditou muito do que pode ser classificado como medicina ocidental moderna. A transformação provocada pela Revolução Francesa, que tira o poder dos religiosos na administração dos hospitais e a responsabilidade para com esses "hóspedes", culmina na iniciativa de Napoleão de selecionar médicos por concurso público para atender aos soldados feridos, que promove uma aproximação com a academia e um ensino de medicina mais programático. O perfil dos pacientes também mudou: até então, quem tivesse os seus pertences seria cuidado em casa.

A experiência pessoal, a formação profissional e os desafios da carreira do autor enriquecem o trabalho com episódios onde não falta bom humor, sem esquecer o olhar crítico. Um bom exemplo é a referência ao papel excessivo da indústria farmacêutica na formação do conhecimento médico, por omissão institucional e social, que gera conflitos de interesses e sobrecarrega o sistema de saúde.

Há também questões relacionadas à arquitetura hospitalar, dissociações entre necessidades e praticidade, contrapondo razões de saúde e finalidades estéticas. Entendo que possa haver, nisso, talvez, um novo equívoco sobre a origem da palavra, confundindo as concepções atuais de hotel e hospital. Um preconceito que serve também, não raro e com pesar, a determinados objetivos da justiça, em particular aos envolvidos na fraude política que procuram providencial refúgio temporário em hospitais.

Existem muitos ensaios interessantes e únicos: opondo-se aos propósitos bíblicos, a Rainha Vitória torna-se um exemplo de parto sem dor; Madame Lafarge, uma descendente bastarda da Casa de Orleans, suspeita de envenenar ao seu marido com arsênico, serve de inspiração para o Bovary de Flaubert; a trágica paixão que deixou ao Ernest Duchesne doente e atrasou o uso da penicilina por cinco décadas; O devido respeito por uma senhora de seios fartos e a memória de um brinquedo de infância levaram ao Laennec à invenção do estetoscópio, o instrumento médico mais emblemático; o intrépido Jamot está pronto para acordar um continente adormecido pela mosca tsé-tsé ... Aprende-se na narração de sucessos e fracassos até esta nova era de estranheza.

Entre tantas histórias, as de outras pandemias, com destaque para a grande peste. O Jean-Noël diz que, por ordem do Papa Inocêncio VII, em 1233, em plena Inquisição, os gatos tiveram que ser eliminados pelas suas "notórias" relações de servidão ao demônio e feitiçaria. Estima-se que a peste bubônica transmitida por ratos asiáticos fez 25 milhões de vítimas em cinco anos, 30 a 50% da população ocidental da época. Desconhecimento, ignorância de poder e crenças infundadas: a escassez de gatos certamente não foi a única causa, mas eles fizeram muita falta nos portos naquela época.

Numa época em que seria ainda mais desejável não precisar de um hospital, um bom livro deve ser recomendado como recurso terapêutico, preferencialmente para ser lido a uma distância social segura.

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